Encontro de Campinas

 

PALESTRA DE RUTH JOFFILY

PROFERIDA NO I ECEF – I Encontro Campinas de Educadores Freinet

Realizado na Escola Curumim, Campinas, SP, dia 05 de maio de 2012.

 

Trabalho com a pedagogia freinet desde 1978, ano em que o descobri e em que iniciei minhas leituras em sua obra e na de muitos de seus seguidores.

Desde então escolhi e reescolhi Freinet muitas vezes e sempre me decidi por continuar tateando, em qualquer dos níveis do sistema educacional em que atuei – Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Superior... Gostaria de trazer algumas reflexões sobre os motivos de tanta persistência (ou seria teimosia?)

Por que Freinet ?

 

- PRIMEIRO -

“Ser fiel a Freinet é, genuinamente, na linha do que ele mesmo pregou, ultrapassá-lo, não transformar sua obra em mais um sistema escolástico”.

“... é viável continuar sua obra, despojando-a do que tem de contingente e de relativo, inventando, a partir de caminhos que ela aponta, novas técnicas, novos instrumentos de trabalho para a realização do objetivo maior que anima tanto seu esforço como o de muitos educadores brasileiros de hoje: uma escola pública a serviço das classes populares.” (Anne-Marie Milon de Oliveira – Célestin Freinet: Raízes sociais e políticas de uma proposta pedagógica)

Essas duas citações têm, como pano de fundo, a idéia de que a obra de Freinet foi, essencialmente, a criação de um movimento pedagógico, que existe até hoje, mais de 40 anos após sua morte, e se estendendo por países os mais diferentes em vários continentes. Por ser um movimento, esta pedagogia é plástica, é dinâmica, e permite, sem se descaracterizar, o debate de várias leituras, que, ao se confrontarem, se enriquecem.

E aqui me lembro de Alice, a do País das Maravilhas, quando, querendo sair daquele lugar onde havia caído, aflita, pergunta ao gato, que é um sorriso: “Onde está a saída? Qual o caminho que devo seguir?” E recebe como resposta: “Depende... Depende de para onde você quer ir...”

Ou ainda, dos versos tão citados do poeta Antônio Machado:

“Caminhante, não há caminho

o caminho se faz ao caminhar.”

Com isso quero enfatizar a importância da dimensão filosófica da pedagogia Freinet, para que não a tomemos apenas como um método, que significa na sua origem etimológica caminho, pois assim ficaremos com um caminho que não sabemos para onde nos leva. E, por não sabermos, corremos o risco de... ficar pelo caminho.

Fiquemos com o gato, aceitemos o desafio do poeta, lembrando que poiesis (em grego) significa criação. Quem sabe assim, com o sorriso do gato, possamos criar e poetar, construindo, na prática, as nossas utopias.

 

- SEGUNDO -

É uma pedagogia construída na prática. Não há separação entre teoria e prática. A prática não é apenas a aplicação da teoria. “A teoria acompanha passo a passo a prática realimentando-a constantemente num processo dialético.”(Anne Marie Milon Oliveira ) Faço e penso sobre o que faço. Portanto, saber é saber-fazer.

Por isso, coloca o professor como sujeito de sua ação educativa. Ele não é apenas aquele que faz, que aplica aquilo que os que sabem dizem que é para fazer. Essa é uma visão tecnicista que precisa ser revista e criticada na educação brasileira ainda hoje.

É necessário e urgente rever a formação do professor.

Nos cursos de preparação para o magistério ainda predominam, a meu ver, as “migalhas de saber”, como dizia Freinet, ou seja, um pouquinho de cada coisa, ou um saber puramente teórico, desvinculado da realidade concreta da sala de aula, e que não prepara o futuro professor para a prática com a criança real, situada concretamente num meio social, que ele vai encontrar.

Portanto, o encontro com Freinet não é a importação de um modelo. Podemos fazer isso, mas, se o fizermos, estaremos traindo o que há de original no pensamento dele. Vamos deixar que ele pense por nós e, assim, deixamos de ser sujeitos de nossa ação. E também vamos apenas copiar receitas, reproduzir, não vamos pensar nossos instrumentos de trabalho em função da realidade que está diante de nós.

 

- TERCEIRO -

Com tudo isso, podemos dizer que é uma pedagogia que não pode ser assumida pelo sistema. Se o for, vão me obrigar a ser Freinet. E como não se obriga ninguém a ter as mesmas convicções sobre a realidade, os valores, as práticas sociais, o máximo que se conseguiria seria a imitação de algumas técnicas, mas desprovidas de seu profundo sentido filosófico e social.

 

- QUARTO -

Outro ponto de identificação: Freinet não é vítima nem do otimismo nem do pessimismo pedagógico.

O otimismo é a visão idealista de que a escola pode transformar a realidade social, decorrente da filosofia positivista do ideal da ciência como organizadora de uma sociedade harmoniosa e justa. Quanto mais o saber for difundido, menos injustiças haverá. Por que idealista? Porque deixa de lado as determinações concretas da sociedade, os interesses econômicos que até impedem que o saber seja difundido. (A quem interessa a difusão do saber?).

O pessimismo pedagógico é baseado na visão da escola como mera reprodutora da sociedade que aí está.

Não negamos que ela seja reprodutora sim, mas se olhamos mais de perto, vemos que a escola é também o espaço da contradição social.

 

- QUINTO -

E daí decorre o quinto ponto que nos atrai e nos identifica com Freinet. Embora sabendo que a escola que queremos só poderá existir numa sociedade mais justa e igualitária, onde não haja exploração do homem pelo homem, e que devemos lutar por essa sociedade em outros espaços de participação política e social, não podemos ficar de braços cruzados, esperando que tudo se transforme, para, só então, transformar a escola. É possível pensar, tentar fazer uma escola que participe da luta por uma mudança radical das estruturas sociais. Freinet aceitou o desafio de tentar buscar, nas brechas do sistema, condições para o seu trabalho. O desafio de fazer uma obra pedagógica inovadora dentro das coerções e dos limites da escola oficial.

Isso o distingue fundamentalmente da maioria dos que implantaram escolas nos moldes do movimento da escola nova. Movimento este com o qual Freinet conviveu e com o qual interagiu, mas do qual se distingue e do qual fez questão de se distinguir até pelo nome, quando adotou, para o seu movimento, o título de Movimento da Escola Moderna. Embora considerado e confundido por muitos com o escolanovismo, Freinet dele se distingue por essa fundamentação político-filosófica que diz respeito à sua concepção da criança como cidadã. Não é a criança-rainha de Tolstoi, no centro do processo, precisando ser protegida para desabrochar sua espontaneidade miraculosa, idéias decorrentes, segundo Philipe Áries, do pensamento burguês, que descobre a criança e a coloca no centro, mas como criança.

Ao pensar a criança como cidadã, Freinet a iguala ao adulto e nisso inova radicalmente. Ou seja, na classe Freinet, a criança tem a palavra, não para que seja preservada em sua espontaneidade, mas porque ela é cidadã. Não há cidadania sem o direito à palavra, através da qual se expressa e se interroga o mundo e a sociedade em que se vive. Através da qual se exprimem desejos e sentimentos.

Através da qual se forma o elo que liga as pessoas no complexo que é a sociedade. Através da qual se exprimem as leis que queremos que organizem a sociedade. Através da qual transformamos essas leis.

Assim, o cidadão não é aquele que simplesmente obedece as leis, mas aquele que as concebe como expressão de seu desejo e de seu conhecimento sobre a realidade. E porque as cria, pode obedecê-las autenticamente. Ou transformá-las.

 

- SEXTO -

E aqui chegamos ao que considero o centro do pensamento de Freinet. Ao pensar a sociedade, ele a pensa criticamente e se posiciona contra uma sociedade de exploração do homem pelo homem, de individualismo, de competição de excesso de consumo. Uma sociedade onde o homem perde sua relação com o trabalho e, através disso, sua relação com os outros homens. Ao pensar a escola decorrente dessa sociedade, vemos que nela preponderam as mesmas características: as atividades são artificiais, nela não se criam idéias, apenas se reproduzem, nela predominam o individualismo e a competição, nela não se forma o autor, apenas o consumidor.

Para repensar a sociedade, precisamos repensar a noção de trabalho. Como também precisamos repensar a noção de trabalho quando pensamos a escola, o trabalho escolar. Em geral o trabalho é visto como um meio, um ou o meio de garantir a sobrevivência. E assim a sociedade vai estabelecendo dicotomias:

trabalho x lazer

dever x prazer

relações impessoais x relações fraternais

Ao ponto de parecer discrepante alguém dizer que gosta de trabalhar. Porque em nossa sociedade o trabalho se transformou num meio de garantir a sobrevivência, e não num fim, numa criação do homem em confronto com o mundo natural e social em que vive.

Podemos tomar como exemplo o que em geral se pensa dos artistas. Exatamente porque eles transformam o mundo e têm grande prazer nisso, em geral são vistos como não trabalhando. Como não trabalhadores. Eles são bem dotados, nascem com o dom. Esquecendo-se de que a arte, como qualquer atividade humana, depende de condições materiais e históricas para a sua realização. Depende de esforço. É um trabalho.

 

Mas todos temos experiência de prazer no trabalho. Contudo, descaracterizamos essa atividade que nos dá prazer chamando-a não de trabalho, mas de hobby . Uma pessoa que no fim de semana, seu momento de lazer, faz tricô, ou qualquer outro artesanato, não diz que trabalha. E, no entanto, são horas de atividade, de gestos disciplinados, de pensamentos, de esforço, que têm como resultado um objeto que vai ser utilizado na vida, para vestir ou para enfeitar. Isso combina com o que Marx disse sobre o trabalho não alienado:

“Suponhamos que produzíssemos  como seres humanos: cada um de nós se afirmaria duplamente em sua produção - a si mesmo e ao outro.

1. Em minha produção eu realizaria minha individualidade, minha particularidade; sentiria, ao trabalhar, o prazer de uma manifestação individual de minha vida, e, na contemplação do objeto, teria a alegria individual de reconhecer minha personalidade como força real, concretamente apreensível e escapando aqualquer dúvida.

2. No teu prazer ou no teu uso de meu produto, sentiria a alegria espiritual imediata de satisfazer, por meu trabalho, uma necessidade de um outro, o objeto de sua necessidade.

3. Teria consciência de servir de mediador entre ti, como um complemento a teu próprio ser e como uma parte necessária de ti mesmo, de ser reconhecido e sentido por ti como um complemento de teu próprio ser, aceito em teu espírito como em teu amor.

4. Teria, em minhas manifestações individuais, a alegria de criar a manifestação de tua vida, isto é, de realizar e de afirmar em minha atividade individual minha verdadeira natureza, minha sociabilidade humana.

Nossas produções seriam como espelhos nos quais nossos seres irradiariam um para o outro.”

(K. Marx, Oeuvres économiques, La Pléiade, t. II, p. 33.Citado por Kiriaki Tsoukala no artigo O conceito de trabalho: da teoria marxista à pedagogia Freinet, que faz parte do Dossiê Pedagógico da Revista L’Educateur, coordenado por Eric Debarbieux, Fragmentos de uma filosofia da infância, tradução de Ruth Joffily, xerox)

Na escola também essas dicotomias aparecem, entre hora de aula e hora de recreio. A tarefa é chamada de dever de casa, ninguém a chama de prazer de casa.

Assim, nosso compromisso enquanto educadores é um compromisso enquanto cidadãos. Mudar a escola é mudar a sociedade. Não quero dizer com isso, repito, que basta mudar a escola para mudar a sociedade. A mudança da sociedade depende da atuação de outras forças. Mas os homens que vão atuar ou atuam compondo essas forças passam ou passaram pela escola. E nela tiveram ou não oportunidade de trabalhar com autonomia e de forma cooperativa com seus companheiros. Tiveram ou não oportunidade de expressar suas idéias, sentimentos, alegrias e dores. Tiveram ou não oportunidade de comunicar sentimentos e idéias e ouvir respostas, outros pontos de vista, confrontar suas idéias com outras, se retomar. Tiveram ou não oportunidade de aprofundar e testar seus gestos e idéias em pesquisas e atividades. Tiveram ou não oportunidade de comunicar seus interesses, suas curiosidades e vê-los atendidos e acolhidos, dispondo dos meios e da organização necessários para esse aprofundamento. Tiveram ou não oportunidade de se autoavaliar e de contribuir, cooperativamente, para a avaliação de seus companheiros.

 

Sabemos que, infelizmente, na maioria das salas de aula, o educando não teve e não tem essa oportunidade.

Podemos, cada um de nós, lembrar do tempo em que era aluno e pensar se nós mesmos tivemos essa oportunidade. E aí reside uma das dificuldades de nossa tarefa: não fomos alunos do professor que queremos ser. Precisamos nos reinventar. 

• Em geral, aprende-se a ler lendo textos criados por outros, que exprimem as idéias dos outros: cria-se o consumidor e não o leitor.

• Os programas muitas vezes são tratados rigidamente, e esse tratamento não leva em conta os interesses dos educandos. Aprende-se sem saber para que se aprende e, como consequência, esquece-se facilmente o que se aprendeu.

• As salas de aula são despersonalizadas; vê-se a turma como se todos fossem iguais, padroniza-se o ritmo, os que se aceleram acabam fazendo bagunça ou se desinteressando, porque não têm mais nada para fazer, os que retardam, os sonhadores, por exemplo, acabam não tendo oportunidade de vencer as dificuldades e aprender e acabam assumindo o fracasso e se assumindo como fracassados.

• Nas atividades de avaliação, é sempre o outro que me avalia. Escrevo, não para me exprimir e comunicar minhas idéias, mas para ser corrigido e receber uma nota. E não participo nem dos critérios nem do julgamento.

Em suma: na Pedagogia Freinet colocamos então o trabalho, na sua forma cooperativa e, portanto, com autonomia, no centro do processo, e dessa transformação da noção de trabalho - trabalho não alienado, trabalho prazenteiro, ou o trabalho/jogo, como diz Freinet, extraímos os eixos da prática pedagógica, realizando nosso compromisso enquanto educadores, o qual podemos, na verdade, subdividir em três compromissos:

1) o compromisso ético/político da formação do cidadão;

2) o compromisso humano de permitir e contribuir para o desabrochar pleno de todas as possibilidades da personalidade do educando;

3) o compromisso propriamente pedagógico de formar alunos capazes de ler e escrever com propriedade, correção sintática e ortográfica, utilizando a escrita como mais um meio de expressão de idéias e sentimentos; capazes de investigação organizada sobre o mundo; capazes de realizar as operações matemáticas para resolver os problemas que se apresentam.

Se tomarmos isoladamente cada um desses compromissos teremos concepções diferentes. Na Pedagogia Freinet eles são tomados simultaneamente e assim temos:

• porque tem direito à palavra, o educando fala - produz sua fala, seu texto;

• ao produzi-lo, produz a si próprio, se expande, desabrocha (se soubermos, enquanto educadores, contribuir para que isso aconteça, ajudando a levantar os bloqueios, respeitando as etapas de desenvolvimento, respeitando a linguagem e a cultura);

• através da produção de sua fala, de seu texto, aprende a dos outros, aprende outras falas, aprende a técnica da escrita e suas regras.

Em termos conceituais, poderíamos dizer que o primeiro compromisso se aprofunda, na obra de Freinet, com as reflexões sobre a educação do trabalho; o segundo compromisso tem sua base na concepção de tateamento experimental e o terceiro compromisso se expande e se concretiza nas inúmeras técnicas e práticas pedagógicas propostas.

Ruth Joffily

Maio de 2012